Monavie – Artigo publicado na Newsweek

2008 Novembro 16

Segue tradução de artigo publicado na newsweek sobre a Monavie

O reino roxo de uma bebida

Devotos alegam que Monavie cura doenças e deixa-os milionários. Mas não seria apenas modismo engarrafado?

Ladeados por uma Ferrari, um Maserati, um Bentley, um Rolls Royce e uma Lamborghini, um bronzeado Dallin Larsen (49 anos) entra no palco com uma garrafa nas mãos e fala para uma platéia de 4.000 pessoas  “Vou dizer uma coisa, as pessoas estão procurando algo com que possam contar, depender, isto é uma constante”. A estranha cena não ficaria fora de contexto de um culto religioso – mas o evento de Larsen, organizado em junho deste ano em Orlando, na Flórida, é baseado em vendas, ao invés de salvação. O objeto da esperança não é Deus, mas um suco de uma fruta escura, chamado Monavie.

Este líquido saboroso composto do açaí brasileiro e outras 18 frutas tem ganhado seguidores e dentre estes, alguns que dizem que o suco pode tirar dor, curar doenças e combater desnutrição. Embalado em garrafas de vinho como a que Larsen apresenta no palco, o Monavie é vendido por quarenta dólares a garrafa e não está disponível em lojas. Ao invés disto, a empresa, sediada em Utah, rasgou uma página da Avon feminina, possibilitando que pessoas normais possam vender o suco entre amigos e familiares. Agora, Monavie afirma ser uma das empresas privadas que mais cresceram no mundo, com filiais em 5 continentes, e um exército de consumidores do suco e distribuidores assinando contrato numa média de 10.000 pessoas por semana. Mais cedo este ano, a empresa anunciou vendas cumulativas que ultrapassaram o valor de um bilhão de dólares e a assinatura do milionésimo contrato de distribuidor independente. “Somos abençoados” diz Larsen, que fundou a empresa em 2005. (como empresa privada, a Monavie não é obrigada a publicar dados financeiros, fazendo com que estas afirmações sejam difíceis de julgar).

Numa economia decadente, Monavie parece constituir uma tendência, fazendo dúzias de mães e pais milionários – de acordo com os dados apresentados pela empresa – e atraindo consumidores que não sentem o mesmo gostinho de riqueza, mas experimentam benefícios miraculosos para a saúde. Em entrevistas dadas a Newsweek e vídeos na internet, pessoas testemunham que Monavie combate câncer, melhora ansiedade e controla sintomas de autismo. Entre os convertidos, está o ex-campeão das 500 milhas de Daytona, Geoff Bodine, que credita a Monavie o auxílio pela recuperação após o pior acidente na história de Nascar; o CEO da Viacom Summer Redstone, que diz que Monavie ajudará a viver por mais 50 anos (ele tem 85); e o jogador do Boston Red Sox, J.D. Drew, que vende o produto na sua página do Myspace.

Os distribuidores Diane Nafziger e Sherry Whitaker abraçam os dois lados da oferta da Monavie: melhor saúde e mais lucro. A ex-professora de primeiro grau e a ex-aeromoça viajam pelo país anfitrionando degustações e encontros de negócios para angariar novos recrutas.  Num recente evento em um hotel de New Jersey, elas colocam uma delicada apresentação para uma platéia de 10 pessoas. Nafziger entra no palco antes, e descreve como um amigo diabético que consumiu Monavie parou de necessitar de injeções de insulina. E Whitaker enfoca o lado negocial, explicando a estrutura de vendas da empresa. Por uma taxa de entrada de U$ 39 (trinta e nove dólares) e a responsabilidade de vender 8 garrafas de Monavie por mês, as pessoas podem comprar o produto e construir suas redes, que é onde está o dinheiro. Em dois anos, Whitaker e Nafziger construíram uma rede de 30.000 pessoas, o que gera as mesmas até 20% de todas as vendas – o que equivale a mais de um milhão de dólares para cada em comissões anuais.

Mas nem todos estão consumindo a bebida salvadora. Os críticos chamam a Monavie de “fraude legalizada”, que beneficia apenas alguns executivos engravatados. O produto, dizem os críticos,  é um suco de frutas super valorizado que evita regulamentação por parte do FDA (Food and Drug Administration) deixando que os distribuidores  (ao contrário da própria Monavie) façam as (falsas) promessas de saúde. No site purplehorror.com, um enorme fórum de discussão sobre Monavie (tão grande que demora a carregar), distribuidores exaltados e (talvez) fãs mais equilibrados do produto discutem o elixir roxo. Um repórter da Newsweek, que tomou a dose diária de Monavie – duas doses, duas vezes por dia – por duas semanas, não experimentou os benefícios milagrosos da bebida, e teve dores de cabeça (mas novamente, pode ter sido porque ele trocou os óculos).

Por enquanto, a maioria do milhão de forças de vendas está, na realidade, apenas bebendo o suco, de acordo com o informativo de declaração de renda dos distribuidores da Monavie de 2007, um documento exigido por órgão federal. Mais de 90% dos distribuidores foram considerados como “clientes preferenciais”, cujos ganhos são os descontos a si concedidos (quando da compra do produto). Menos de 1% qualificou-se para comissões e, destes, apenas 10% ganhou mais de U$ 100 (cem dólares) por semana. E o percentual de desistência, embora não informado pela Monavie, é por volta de 70%, de acordo com um recrutador “top”.

Larsen, por sua vez, sabe que pode entrar numa fria com os agentes federais. Um veterano de 20 anos na indústria de marketing multinível, ele deixou um cargo sênior em outra empresa de MMN em 2002, um ano antes do FDA destruir os produtos “enganadores” que estavam sendo falsamente promovidos para tratamento de câncer, artrite e déficit de atenção. No verão passado, o FDA alertou a Monavie sobre as alegações terapêuticas atribuídas ao suco, constantes do website e, num e mail enviado a Newsweek, informou que está satisfeita com a resposta dada pela empresa. Em encontros de negócios, como o ocorrido na Flórida, Larsen diz que lembra as pessoas que Monavie “é apenas um suco”. Enquanto isso, um departamento composto por 18 pessoas investiga distribuidores suspeitos de fazerem falsas alegações – embora com um milhão de pessoas distribuindo, mais fácil falar do que fazer. “É praticamente impossível” admite Larsen, “como pastorear gatos”. Com vendas de um milhão de garrafas por semana, é como cunhar dinheiro.

Veja também:

O suco da Monavie

Monavie: os números de um bom negócio?

Monavie rumo ao topo: artigo da revista Forbes

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